Todo processo de crescimento envolve riscos. Se não queremos assumir novos riscos não podemos crescer.
Quando bem cedo na vida, ao começar a dar os primeiros passos, eles certamente serão acompanhados das primeiras quedas.Assim como os primeiros passos, aprender a andar de bicicleta, nadar, dirigir um automóvel, escolher uma profissão, aceitar o desafio de um novo emprego, enfim, qualquer atividade que envolve risco, na verdade tem duas formas de ser encarada: como uma oportunidade ou uma ameaça.
Se decidirmos que riscos são sempre e simplesmente ameaças, vamos nos defender destas situações evitando-as e justificando que prudência e caldo de galinha não faz mal a ninguém. O que não deixa de ser verdade, mas também não vai promover significativo crescimento.
Se por outro lado estamos sempre dispostos a encarar qualquer risco, como quem gosta de viver perigosamente, certamente não iremos crescer durante muito tempo de forma consistente.
Algumas vozes têm sistematicamente analisado certas questões de relevância, como, por exemplo, a produção de transgênicos, como ameaças e não como oportunidades. Esta posição sistemática de evitar riscos, simplesmente por classificá-los como ameaças vai garantir certamente nossa condenação à falta de crescimento, construindo uma sociedade de nanicos medrosos.
A Alca é um outro exemplo bem atual que se não for tratada com a devida coragem para enfrentar os riscos, superar os desafios, e possibilitar que sejamos tratados à altura que devemos, vai nos deixar fora de um mercado importantíssimo para viabilizar nosso crescimento.
Proteção demais desprotege... Sem o risco de cair não aprendemos andar, assim como sem exposição aos vírus não desenvolvemos anticorpos. Temos de estar dispostos a sair do casulo, ou não vamos permitir que o processo de crescimento, por mais adequado que seja, se desenvolva.
Temos observado ultimamente os argumentos que indicam a construção civil como grande promotora de postos de trabalho e como parte da solução do desemprego. O grande déficit habitacional do país, assim, nos parece portanto uma desafiadora oportunidade para matarmos dois coelhos com uma só paulada: diminuir o desemprego e a questão habitacional. Fantástico!
Porque então esta atividade não deslancha? Porque as empresas de construção civil não estão produzindo postos de trabalho e moradias a um ritmo acelerado? Será que falta tecnologia adequada para a construção de moradias? Ou será que os insumos seriam importados ou de difícil obtenção, ou será ainda que a mão de obra não tem qualificação necessária?
É evidente que nenhuma destas razões seria responsável pela atual situação, ao contrário, temos tecnologia, materiais, mão de obra, empresas organizadas. O que nos falta então?
A resposta mais freqüente é dinheiro, recursos, capacidade de investimento.
Enquanto aceitamos esta justificativa, falta de recursos para financiamento imobiliário, como algo classificado na categoria das ameaças e não sabemos muito bem, o que fazer, podemos observar a abundância de recursos e facilidade de financiamentos (se bem que com juros ainda elevados) para a compra de automóveis e eletro domésticos.
Porque falta dinheiro de um lado e sobram ofertas de financiamento do outro? Talvez fosse a garantia para os financiamentos? Mas se uma casa é pela própria definição um imóvel, e o carro um automóvel, a garantia da casa deveria ser melhor, mais aceitável pelos agentes financiadores, afinal seria uma garantia que não se move, não sai do lugar, é imóvel.
Se não é a garantia em si, então qual a explicação?
A explicação para a falta de financiamentos está na dificuldade se exercer os direitos de garantia no caso do financiamento imobiliário. Se alguém deixar de pagar o financiamento de um carro ou de um eletro doméstico, a financeira poderá retomar o bem com um procedimento relativamente simples, mas no caso da tão sonhada, e quem sabe merecida, casa própria, os procedimentos para retomada são extremamente demorados por se tratar de assunto com legislação própria, que na verdade praticamente impede o agente financeiro de reaver o imóvel em tempo razoável para que a operação de financiamento seja considerada interessante, ou seja, a garantia não garante nada.
Se ninguém se dispõe a financiar não é pela falta de recursos, mas na verdade pela falta de garantia aceitável.
Os fóruns de debate das questões habitacionais normalmente têm reunido autoridades do poder executivo, diretores dos agentes financeiros, empresários da construção civil, e mesmo representantes da sociedade civil interessados na solução destas questões, mas tais esforços têm se mostrado insuficientes uma vez que o cerne da questão não está sendo atacado.
A forma de atacar corretamente esta questão deve levar em conta a legislação pertinente que não permite a adequada retomada do bem quando necessário, e mesmo a interpretação das leis que acabam considerando, via de regra, o financiado como a parte mais frágil na relação, estabelecendo assim uma situação de injustiça e autoritarismo com a fachada de proteção.
É certo que novas formas de financiamento baseadas no conceito de arrendamento do imóvel estão sendo implementadas, mas só terão êxito realmente se, e quando, a cultura da retomada do bem for firmemente aceita pela sociedade, e o esperto passar a ser percebido como golpista.
A solução do déficit habitacional depende hoje mais dos poderes Legislativo e Judiciário, que do poder Executivo, dos agentes financeiros e mesmo dos empresários da construção que estão, sem dúvida, ávidos para produzir empregos e moradias.
Proteção demais desprotege... Acabamos sem financiamentos, ainda que tenhamos os recursos, sem as obras e os empregos, ainda que tenhamos a tecnologia e a mão de obra, e sem as moradias, ainda que tenhamos a demanda e sinceros interessados em adquirir a casa própria.
Sem a disposição de correr os riscos correspondentes não se cresce. A ameaça não se transforma nunca em oportunidade, e pela excessiva atenção com a proteção estamos muitas vezes acalentando oportunistas que acabam morando de graça, e penalizando todos os demais sinceros interessados.
Eng. Fernando José da Rocha Camargo MSc


