Gerenciando o Elo Entre a Criação Mental e Física

TUDO É CRIADO DUAS VEZES.
Ao me formar na escola de engenharia, mais de 30 anos atrás, eu tinha a idéia de que se tinha estudado engenharia era para construir, por exemplo, uma estrada onde só poderíamos chegar de jipe, ou para construir uma ponte onde a travessia do rio fosse feita de balsa, e com esta forma de encarar as oportunidades no campo da engenharia civil, acabei me interessando em atuar nos mais diversos recantos do território nacional e mesmo internacional. Eu não apenas aceitei estes desafios, como na verdade os procurei. A necessidade de enviar alguém para um serviço, nos locais mais remotos, era para mim a mais desafiadora chance, encarada como verdadeira aventura profissional, buscando cada vez uma nova fronteira da civilização.

Por conta desta atitude tive a oportunidade de me encontrar com os mais diversos desafios no campo da engenharia civil. Desafios tecnológicos interessantíssimos, que na verdade consistiam em ocasiões especiais de aprendizado.

Que desafio estimulante era, por exemplo, construir uma barragem com mais de 3 milhões de metros cúbicos de concreto, numa região onde o agregado encontrado se mostrou, em ensaios de caracterização, potencialmente reativo com os álcalis do cimento. Ora uma das características exigidas nas especificações, conforme aprendemos na escola, é que os agregados sejam inertes, estáveis. E agora? Temos a oportunidade de uma importante obra e o agregado é potencialmente reativo. O que fazer? Abandonar o projeto? Ou enfrentar o desafio tecnológico? Evidentemente que o desfio foi vencido, com estudo, consultoria especializada e tecnologia adequada. A barragem está lá, construída há 30 anos e operando normalmente.

Depois de vencer um desafio tecnológico, fica a lição para as próximas oportunidades, e quando o problema se repete a solução até perde um pouco da graça.

Assim construir estradas onde os materiais não são abundantes, fazer estruturas de concreto onde não existe rocha como estamos acostumados, enfim vencer desafios tecnológicos é no fundo uma diversão para os técnicos envolvidos.

Na verdade, nestes 30 anos de andanças, nunca vi uma obra que tivesse de ser abandonada porque algum desafio tecnológico não pudesse ser vencido, nunca vi uma obra que fosse interrompida por causa de obstáculos técnicos intransponíveis.

Por outro lado a ocorrência de obras interrompidas por outros motivos é mesmo bastante freqüente. Normalmente o motivo que mais paralisa as obras é a falta de recursos. De alguma maneira faltou dinheiro.

No nosso modo de entender, só existem dois motivos para faltar dinheiro: ou porque pedimos pouco, previmos baixo, ou porque gastamos mal, e o dinheiro é desperdiçado, indo, até mesmo, parar onde não devia e nem estava previsto. Ou seja, os desafios que atrapalham o andamento das obras são sempre desafios gerenciais, e raramente desafios tecnológicos.

Em outras palavras, o principal desafio da engenharia nacional é gerenciamento dos empreendimentos. A falta de gerenciamento adequado é que tem paralisado tantas obras e deixado tantos empreendimentos pelo caminho.

Mas, afinal das contas, o que é realmente Gerenciar Empreendimentos?
Temos observado diversas ocasiões onde profissionais dedicados e organizações até mesmo bem intencionadas, têm se definido como especialistas em Gerenciar Empreendimentos, baseando-se no fato de possuírem programas bem desenvolvidos e repletos de recursos técnicos, associados a modernos e poderosos equipamentos de processamento e apresentação de dados.

Este é um erro fundamental, valorizar as ferramentas em detrimento da habilidade e conhecimento de quem as deve manejar. Gerenciamento não é uma questão de ferramentas, de softwares, de computadores, mas sim uma questão de pessoas, de equipes e de idéias para garantir os objetivos dos empreendimentos.

O diferencial competitivo das empresas não está mais no patrimônio, nas instalações, nos equipamentos, nem mesmo na tecnologia, mas está principalmente nas pessoas, porque as empresas na verdade são feitas de idéias, e não apenas de recursos.

Alguns anos atrás eu tinha diversas atividades e empreendimentos entre São Paulo e Rio, e semanalmente me deslocava de carro entre estas duas cidades acompanhando os diversos serviços. Nesta ocasião, a estrada que liga as duas maiores cidades do país, a Via Dutra era um buraco só, ou melhor, acho que eram na verdade dois buracos, um nas finanças e outro no pavimento. Perdi a conta de quantos pneus foram cortados e quantos amortecedores foram danificados nos buracos da Dutra.

A lógica da manutenção da estrada era inteiramente perversa. O DNER - Departamento Nacional de Estradas de Rodagem se empenhava para conseguir verba no orçamento, recapeava a estrada, e depois ficava torcendo para ninguém passar, para não estragar o pavimento que estava novinho em folha.

Hoje a Dutra não tem mais buracos, tem telefones de emergência ao longo de toda sua extensão, equipes de socorro, e mais importante, sua administração torce para que cada vez mais usuários passem por lá diariamente.

Eu pergunto: o que mudou? São Paulo e Rio continuam a ser os mesmos pólos de importância para o país, como já eram anteriormente, o fluxo de veículos só fez aumentar, e a situação é completamente diferente.
O que mudou foi na verdade a idéia, o espírito por trás da organização que administra o empreendimento.

Outro exemplo interessante é a CSN - Companhia Siderúrgica Nacional, que alguns anos atrás dava um prejuízo diário de um milhão de dólares, apresentava tecnologia desatualizada nos processos e nos produtos e um grande cabide de empregos, que após a modificação da idéia, do espírito que norteia a organização, passou por um profundo processo de modernização e apresenta atualmente a mais moderna tecnologia na produção e nos produtos, disputando com vantagem os mais importantes mercados mundiais no seu segmento, e mais importante que tudo isto, apresentou um lucro de um bilhão de reais no ano, ou seja, aproximadamente um milhão de dólares de lucro diário.

Gerenciar empreendimentos é antes de tudo entender a idéia, os objetivos, o espírito do empreendimento, o que só pode ser levado a efeito pela componente humana das organizações.

Os empreendimentos, assim como todas as coisas, são necessariamente criadas duas vezes. A primeira criação é uma criação mental, ou espiritual, onde a concepção, a idéia do negócio, do empreendimento, é desenvolvida. A segunda criação então é a criação física, onde se reúnem os recursos, os materiais, e se constrói fisicamente o empreendimento. O risco de se iniciar a construção física antes da criação mental é a confecção de algo sem pé nem cabeça, sem consistência, um monstro, uma deformidade. Mais ou menos como se constroem as escadas de acesso aos barracos nas favelas dos morros cariocas, que pela falta de criação mental prévia acaba com degraus de todas as dimensões, com alturas diferentes, sem patamares intermediários, enfim uma deformidade, simplesmente pelo fato de que não foram pensadas previamente.

Finalmente o gerenciamento é então o elo que liga estas duas criações, o elo entre a criação mental e a criação física, o responsável pela promoção da harmonia entre os diversos envolvidos, tem o papel de maestro desta orquestra, ou seja, não é responsável pela emissão de nenhum som, mas deve garantir a harmonia do conjunto, entender a idéia do compositor e transmitir o espírito da obra.

Gerenciamento é uma questão de pessoas, de equipes e de idéias.
Eng. Fernando José da Rocha Camargo MSc
 
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